Espelho…
Me deparar comigo mesma, nem sempre é algo simples…
Muitas vezes achamos que em uma conversa comum com alguém, nós conseguimos disfarçar o que pensamos, sentimos, queremos…
Mas quando o papo é conosco, o fingimento não tem vez!
Me pego um dia, me preparando para uma noite a dois e um pouco antes dos últimos retoques da minha maquiagem eu me questiono a cor do batom que vou usar… o rosa vai me deixar infantil… o vermelho pode me deixar ousada demais e pra um primeiro encontro pode ser ruim… o nude pode dar a impressão que eu nem pintei os lábios… ah… sei lá! Ao olhar meu delineado perfeito, esfumado com a minha sombra de cor favorita, vejo a minha beleza realçada e me sinto um tanto quanto feliz comigo mesma.
Paro ali um minuto, jogo pro lado o meu cabelo escovado e percebo que aquela mulher no espelho talvez esteja se esforçando demais pra esse encontro e que não tem lá se esforçado muito para agradar a si!
Saio um minuto, me sirvo uma taça do vinho que eu mais gosto, me sento novamente em frente ao espelho e acendo um cigarro enquanto eu observo a mim mesma…
Toda essa produção sempre fica exposta para os outros e eu só curto isso rapidamente numa ida ao toalete para tratar de manter a pintura bonita para ser exposta… nem sempre o apreciador da minha pintura merece e nem se quer aprecia como se deve… então porque será que me importo tanto?
O apreciador de hoje está a minha altura? Irá de fato me apreciar? Ou será que não devo me importar com isso e apenas decidir logo a cor desse bendito batom, terminar o meu vinho, o meu cigarro e acertar minhas contas com esse tal de espelho?
Como pode uma imagem tão conhecida por mim, do nada me fazer parar pra pensar assim… e esses tais apreciadores? Será mesmo que devo chamá-los assim?
Será que eu tenho sido minha aprecidora?
Quantas perguntas… o fato é que me aprimorei em técnicas de cabelo, maquiagem e esmaltação para garantir a melhor “tela” possível e eu eu nem sequer paro pra curtir isso.
Nossa… eu amo meus olhos! O contorno da minha boca… a tanto tempo que eu não curto os meus próprios predicados…
Quer saber? Mais uma taça! O cigarro já está no final, mas esse vinho custuma ser tão caro nesses restaurantes repletos de “telas” em branco ou absurdamente coloridas, que já se fazem comuns de tanto que se fazem iguais.
Apoio meu queixo na minha mão direita e me dou um sorriso gostoso que não me presenteio desde a época de menina. Sorrimos para tantas pessoas durante a vida e acabamos nos esquecemos de sorrir para quem mais deveríamos… nós mesmas!
O cigarro acaba e finalmente depois de tanto me olhar eu decido… vai ser o vermelho matte! AMO essa cor! E sinceramente se o apreciador da tela achar estravagante, ele que mude de tela! A minha eu vou manter como EU gosto! Afinal… nenhum artista modifica seu quadro numa exposição! E como todo bom artista, eu tenho muito orgulho da pintura que eu exponho!
E sorte dele que hoje eu estou do jeito que EU preferi. E depois de papo, ele ainda poderá desfrutar da companhia da minha melhor versão!
Termino o vinho, passo o batom e me levanto pra pegar minha bolsa.
Antes de sair olho meu conjunto completo e digo a mim mesmo: “Bom encontro! Se divirta! Tome a dose de vinho necessária pra abrir mão da dose certa de juízo e arrasa!”
Colo um beijo no espelho, retoco o batom e me despeço da imagem que eu mais gostei de encarar… a da mulher que se admira!
Por Ana Delmas
